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Tu És o Glorioso - 11

Em 1967, Fogão conquista o Campeonato Carioca com nova geração de craques
Atualizado em 31-03-2015, 16h00

Por Auriel de Almeida - Historiador

Com a aposentadoria de ídolos como Nílton Santos, Zagallo e Didi e sem Amarildo, Quarentinha e Garrincha, uma nova leva de craques alvinegros, que já vinha aparecendo ao lado desses veteranos nos últimos anos, assumiu a difícil tarefa de não deixar a torcida do Botafogo com saudades.

A segunda geração de ouro daquela década começou a se consagrar em 1967, com a conquista do Campeonato Carioca, e emendaria uma sequência de títulos e grandes exibições que manteriam o Clube da Estrela Solitária como o maior fornecedor de craques para o selecionado brasileiro - que veria em 1970 mais um título do Brasil em Copas do Mundo.

O aperitivo daquele ano foi a Taça Guanabara – então um torneio extra, e não o primeiro turno do Estadual, como é hoje – conquistada em uma decisão empolgante contra o America. E no Campeonato Carioca em si, disputadíssimo, a corrida pelo título ficou entre o Botafogo e um fortíssimo Bangu, campeão de 1966 e vice em 1964 e 1965.

Conforme a prática da época, o jogo entre as melhores equipes do primeiro turno foi marcado para a última rodada do segundo, e a distância mínima entre os clubes – um ponto – tornou a partida em uma final, como a organização do torneio desejava. Quem vencesse seria o campeão.

Confira o vídeo do Canal 100 da grande decisão!




O JOGO

A partida foi disputada debaixo de uma forte chuva, que deixou o campo pesado. Mas os dois times, extremamente técnicos, conseguiram minimizar os efeitos da grama molhada fazendo um jogo inteligente, calmo, controlado. E na bela disputa entre os meias de Botafogo e Bangu foi o Alvinegro que levou a melhor. O excepcional Gérson, em dia inspirado, articulava as principais jogadas do time, enquanto Carlos Roberto executava bem a marcação. E Paulo Cézar, na ponta esquerda, servia de terceiro homem na intermediária, conectando as jogadas do meio ao ataque. Para esses três, era como se a chuva não existisse.

O primeiro erro do Bangu, cometido por Mário Tito logo aos 12 minutos, foi fatal. O zagueiro atrasou a bola para o goleiro Ubirajara, e a esfera parou no caminho, freada pelo gramado encharcado. Roberto Miranda, atento, conseguiu chegar antes que o rival, entrou livre na área e marcou: 1 a 0 para os alvinegros.

O gol desestabilizou os banguenses, principalmente Mário Tito, consolado por Ubirajara após o lance, e logo a equipe da Zona Oeste começou a errar muitos passes, situação que seria aproveitada pelo Botafogo. Usando o controle de jogo para irritar o adversário, Gérson e seus companheiros passaram a prender a bola no meio-de-campo, chamando o rival a cometer faltas – o que deu certo.

Mesmo assim o Bangu teve três boas oportunidades. Na primeira, Ocimar cobrou falta com perigo e Manga espalmou mal, para dentro da área, mas a zaga afastou. Depois, o goleiro alvinegro conseguiu segurar uma bola nos pés de Mário, que recebia ótimo cruzamento rasteiro. E na mais perigosa, Aladim cruzou, Manga foi atrapalhado pelo atacante Del Vecchio e a bola entrou direto no gol, em lance anulado por Antônio Viug.

No segundo tempo o alvinegro recuou demais, já satisfeito com o placar. Embora a estratégia fosse arriscada, era justificada pelas condições do gramado, mas logo aos sete minutos a mesma foi por água abaixo. Mário recebeu um belo lançamento de Del Vecchio, invadiu a área e chutou no ângulo direito, com força, empatando a partida em 1 a 1. O panorama de jogo foi totalmente alterado após o gol banguense, e a partida ficou empolgante, com chances de lado a lado.

O Botafogo quase marcou com Gérson, que ficou com a sobra de uma bola rebatida por Ubirajara na área, mas o goleiro do Bangu conseguiu se recuperar e defender o chute fraco do meia alvinegro, no segundo gol mais perdido da tarde. O craque se redimiria aos 22: após curta tabela com Paulo Cézar, Gérson chutou de fora da área, na ponta esquerda, com muita força, encaixando a esfera no ângulo do goleiro rival, que pulou em vão: 2 a 1 para o Glorioso.

Os botafoguenses, com a vantagem, voltaram a se retrair, e o Bangu partiu para cima. Os alvirrubros tiveram ao menos duas boas chances, com uma bola tirada em cima da linha por Waltencir e outra chutada no peito de Manga, salva pela zaga após bate-rebate na área. Mas o lance mais perigoso foi protagonizado pela Estrela Solitária, quando Jairzinho escapou pela esquerda, cruzou por cima de Ubirajara e viu o colega Roberto, sozinho e sem ninguém à frente, escorregar no pulo e cabecear sem a menor força – esse sim o gol mais perdido da tarde.

Felizmente o lance não fez falta. À medida que a partida chegava ao fim, a segurança do Botafogo e a tensão do Bangu só faziam aumentar enquanto a torcida alvinegra entoava a marchinha “Está chegando a hora”. Música que foi alterada para “É campeão”, assim que Antônio Viug soou o apito final. Uma nova geração de craques botafoguenses começava ali a sua trajetória gloriosa.

==Ficha técnica==

Domingo, 17 de dezembro de 1967
Botafogo 2 x 1 Bangu – Local: Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã)
Campeonato Carioca – 2º Turno

Botafogo: Manga, Paulistinha, Zé Carlos, Sebastião Leônidas e Waltencir; Carlos Roberto e Gérson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo Cézar. Técnico: Zagallo.

Bangu: Ubirajara Motta, Cabrita, Mário Tito, Luiz Alberto e Ary Clemente; Jayme e Ocimar; Paulo Borges, Del Vecchio, Mário e Aladim. Técnico: Plácido Monsores.

Árbitro: Antônio Viug (GB).
Gols: Roberto aos 12/1ºT; Mário aos 7/2ºT e Gérson aos 22/2ºT.

Público: 111.641